Liderança e teletrabalho em tempos de crise: Com Manuel J. Rito, do Selina

A pandemia do Coronavírus trouxe inúmeros desafios para diversos setores e afetou diretamente empresas e colaboradores. Neste contexto, o papel dos líderes neste momento ganha destaque: Uma liderança efetiva torna-se cada vez mais crucial para manter a equipa unida e produtiva, seja qual for o setor. Gerir mudanças, sobretudo em períodos de crise, é essencial para que a empresa consiga lidar com situações inesperadas.

Em meio a esta crise, um dos setores que mais sofreu foi o de turismo, que teve que reinventar-se e aprender como lidar com a nova realidade.

Conversamos com Manuel J. Rito, Global Marketing Project Manager do grupo hoteleiro Selina, uma das empresas com destaque em hospitalidade em Portugal e presente em diversos países ao redor do mundo. Nesta entrevista, Manuel conta-nos um pouco sobre como o Selina tem lidado com a crise no setor de turismo e sobre os desafios de liderar equipas e projetos à distância.

Em meio a esta crise, Manuel mostra-se otimista com a recuperação do setor e aposta no segmento de pessoas que buscam uma combinação de lazer e negócios, além de novas soluções para o trabalho remoto.

Para além disso, ele destaca a importância de, mais do que nunca, trabalhar em conjunto com os colaboradores, alinhar expectativas e incentivar uma participação ativa na busca de soluções inovadoras que possam ajudar a empresa. Confira a entrevista completa abaixo!

Para começar, pode contar-nos um pouco sobre sua trajetória profissional? O que fazes no Selina hoje? 

A minha caminhada no Selina começou em Novembro 2018, um mês após o Grupo ter aberto o primeiro hotel em Portugal e na Europa, na cidade do Porto. Comecei como Diretor de Marketing e Vendas, fechando as primeiras contas corporate, operadores turísticos assim como  definir e implementar todo o plano de marketing – desde parcerias com outras marcas, programa de influenciadores, estratégia de promoções anual entre outros.

Em Janeiro de 2020, fui promovido para Diretor de Marketing da Europa ficando responsável pela coordenação de toda a equipa de marketing Europeia e pela operação e implementação de toda a estratégia e plano em todas as nossas unidades: atuais e as futuras.

Neste momento estou como Global Marketing Project Manager, gerindo todas as campanhas de marketing a nível global na componente de e commerce, campanhas de ads e todo o conteúdo de website e app.

O Selina está presente em lugares no mundo todo. Como gerir processos e pessoas com qualidade mesmo a distância? Quais os maiores desafios?

O maior desafio de todos é a distância física.

“As equipas estão em todo o lado e é difícil criar uma cultura de equipa, estando cada uma das pessoas em lugares diferentes no mundo. “

Para colmatar isso mesmo, existem reuniões diárias para não só se fazer os status de todos os projetos, como para nos aproximarmos a nível pessoal.  Depois temos o alinhamento de processos e projetos, que também é complicado.

Para isso, trabalhamos com um software de gestão de projectos que permite entender o status de cada projeto e agregar todos os documentos feitos. O trabalho remoto apesar de ser o futuro e ter muito potencial, apresenta desafios como estes que tentamos ultrapassar todos os dias.

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Qual foi o impacto da pandemia na empresa e como lidaram com isso?

Durante os meses de confinamento a perda de receitas foram à volta dos 80%. O que nos permitiu aguentar durante estes meses e agora nos meses de Verão foi a alteração do nosso modelo de negócio: passamos de ser puramente uma negócio de hotelaria para passar a incluir um modelo de CoLiving.

Isto é, temos agora a possibilidade de as pessoas ficarem nos nossos hotéis por períodos mensais com acesso a benefícios exclusivos como cowork gratuito. Criámos também o mês passado o Global Selina CoLive Package, que permite por um fee mensal circular por vários Selinas à volta do mundo ou num país em exclusivo.

Neste momento somos assim um grupo hoteleiro que vende não só estadias como a possibilidade de viver mensalmente nas nossas unidades.

Para além de hospedagem, o Selina possui espaços de cowork em diversos locais diferentes. Como adaptaram-se  à nova realidade? Quais os benefícios de um espaço como este em um momento em que o teletrabalho ganha força?

Em primeiro lugar, reduzimos a lotação dos nossos espaços de cowork e asseguramos uma limpeza mais rigorosa em termos de segurança para os nossos coworkers. Em segundo lugar, criámos um modelo que permite aos nossos membros mensais utilizar todos os coworks de Portugal gratuitamente, dando assim a oportunidade de viajar e trabalhar pelo País.

“O especial de trabalhar num cowork é sobretudo o network que se ganha: é fazer parte de comunidades criativas, empreendedoras e de diferentes nacionalidades e aprender com cada uma delas.”

Achas que o modo como trabalhamos vai mudar? O teletrabalho veio para ficar?

O teletrabalho veio claramente para ficar, mas não acredito que seja a 100%.

Acho que caminhamos para um futuro onde existirá uma partilha de tempo igualitária entre escritório e work remote.

Até porque, como seres sociais que somos, precisamos de estar e conviver com outras pessoas, mesmo que no trabalho. Acho que claramente a exigência de estar no escritório das 9 às 6 vai deixar de existir, para termos uma maior mobilidade como trabalhadores e seremos nós a escolher de onde preferimos trabalhar.

Manter a produtividade dos colaboradores é um dos grandes desafios dos gestores neste momento, independentemente da área. Como incentivar a produtividade em períodos de crise? 

A falta de produtividade está diretamente relacionada com a incerteza e insegurança em relação ao futuro em tempos de crise. O mais importante para motivar uma equipa nestas alturas é sobretudo dar-lhe a responsabilidade de poderem inovar e, sobretudo, saber ouvi-los e envolvê-los nas respostas para o futuro da empresa.

“Uma equipa motivada durante estes tempos é aquela que sabe que pode fazer a diferença, que tem abertura para encontrar soluções, implementá-las e envolver-se nas decisões futuras da empresa.”

É importante ao colaborador sentir que faz parte de algo e que mesmo em crise há espaço para ser ouvido e que pode ter um papel relevante no sucesso da empresa em tempos mais complicados.

Um dos setores que mais sofreu com a crise foi o de turismo. Quais são as perspectivas para o futuro? 

Acredito que a recuperação do Turismo pós-COVID se fará mais rapidamente do que todos pensamos. Apesar do segmento de business travelers acabar por diminuir, por já não existir tanta necessidade de deslocação, o teletrabalho vem trazer um novo segmento: os bleisures (uma combinação entre business e leisure: viajar e trabalhar).

O teletrabalho vai permitir que esse novo segmento cresça.

“A não existência de limitações físicas do local de trabalho, vai fazer com que todos se desloquem mais e com mais frequência.”

Por isso acredito sim que a recuperação será rápida assim que a crise pandémica esteja efetivamente resolvida. Até lá, o crescimento será fraco e dependente das aberturas de fronteiras e restrições de cada país.

Neste momento de crise, o papel da liderança é mais importante do que nunca. Qual a importância de manter os colaboradores motivados? Como foi a sua experiência enquanto gestor nesse período?

Numa altura como esta, o sentimento de insegurança perante o futuro é enorme o que faz com que os colaboradores estejam mais nervosos e assustados.

“É importante existir, nestes momentos, uma forte componente de transparência entre o gestor e a sua equipa em relação aos temas mais críticos da empresa.”

E essa transparência deve depois resultar numa envolvência da equipa em fazer parte de uma solução conjunta para resolução dos problemas que estão a ser atravessados neste momento.

No caso do Selina, semanalmente estávamos a organizar reuniões para discutir formas criativas de contornar a crise do turismo. As melhores ideias eram escolhidas para serem testadas em alguns hotéis. Tínhamos uma reunião mensal para comunicar os problemas que estávamos a ter e como isso poderia implicar as nossas vidas.

Havia uma noção do que era dito era verdadeiro e de que todos eles tinham autonomia, responsabilidade e eram ouvidos para encontrar soluções que nos ajudasse a ultrapassar estes tempos mais difíceis. E isso fez sentir qualquer colaborador um game-changer e um ativo essencial para a própria empresa. E não há algo que nos motive mais: sentirmo-nos relevantes.

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