Transcrição
Lidando com a frustração criativa Ok, batatas diretamente, comida representa-me, boa.
Como é que trabalhar em publicidade te ensinou a lidar com a frustração criativa?
Começamos bem, fortes. Já nem me lembro...Ora bem, por onde começo?
Acho que no fim a publicidade trata-se sempre desta constante prova e erro,no sentido de que, quando eu trabalhava em publicidade e tinha diretores criativos,no fim, epá, apresentar uma ideia era a motivação absoluta do dia. E tu tinhas...
dedicado talvez dias, horas, nem que fosse só uma manhã e explicavas tudo motivado, e no fim era tipo: "Esta é a ideia com que vou com tudo".
De repente, num segundo, esse diretor ou diretora criativa podia deitar abaixo a ideia e era tipo: "Bem, bora lá recomeçar".
Portanto, acho que sempre foi uma profissão de tentativa e erro e, no fim,também essa é a graça e aliviar essa frustração. E não faz mal, seguimos e voltamos à mesma ideia.
Depois posso comer isto?Estudei publicidade e relações públicas e já na própria licenciatura foi sentir um bocado de frustração, porque eu sabia perfeitamente que queria dedicar-me à publicidade digital.
E mesmo no terceiro ano tivemos uma cadeira que era meio digital,em que literalmente nos falavam de banners.
Nada mais do que isso, quero dizer.No ano seguinte já estava a fazer publicidade para meios digitais que não tinham nada a ver com o que tinha estudado quatro anos.
E foi tipo: "O que é que eu faço?" Na própria licenciatura, mesmo com professores de criatividade,era tipo, epá, não tenho tanta química como com o prof que me ensina produção, que acho que me vai ensinar muito mais sobre o departamento criativo, do que o prof que se dedica a isto.
E foi tipo: "No fim, esta mistura estranha destes quatro anos,acho que não me serviu de muito para o que quero fazer ou ao que...
me quero dedicar no futuro".Vamos a outra coisa.Foi super tentador no fim, porque o último estágio da universidade estava muito bem pago para o que era na altura,porque era um estágio em que eu já ganhava 1000 €. E foi tipo: "Olha, ótimo".
Nem era de criatividade, era de executiva de contas e foi tipo:"É para aí que vou, porque agora o que me interessa é ganhar dinheiro".
Aprendi imenso, mas aprendi sobretudo o que não queria.
Quando uma tem mesmo claro que quer ser redatora e, de repente,está o dia todo ao telefone a falar com clientes, é tipo, epá,isto está a queimar-me, vamos tentar fazer uma mudança. E foi tipo:"Vamos tentar poupar o máximo possível deste salário, no fim, para pagar um mestrado focado em criatividade".
E aí sim foi tipo, vamos encarar isto ,vamos dar tudo.
Lembro-me que até nessa escola de criatividade havia prémios a cada três meses para os melhores projetos. De três cursos que fiz, ganhei dois.
E isto para mim era o máximo que podia ter naquela altura, em termos de: "Epá, olha, quero fazer criatividade,não me está a correr nada mal".
Genial, não é?Consegui aí o meu primeiro estágio numa das cinco agências top de Espanha.
E de repente foi tipo, olha, sou super viciada em publicidade, adoro isto.
Adoro que os anúncios hoje em dia ainda me façam chorar, porque acho que,caramba, entre toda a equipa que pensou naquilo, chegar a um público e emocioná-lo dessa forma, há ali um trabalho incrível.
Eu queria estar 100% aí.E de repente vejo-me numa agência, em que tinha perfeita consciência de que não me iam dar, claro, os melhores trabalhos,para fiambre, presunto doce e chouriço.
E foi tipo, ai! está-me a escapar um bocado o que eu quis fazer este tempo todo.
Mas é verdade que dessa agência levo ter escrito uma linha de GIFs.
Ou seja, era: tínhamos de pensar em GIFs para o Messi.
Eu sei que anda por aí no Twitter um GIF que o Messi fez para uma campanha da Lays.
Coincidência? Talvez, mas o Messi fez algo que eu escrevi quando tinha vinte e poucos anos e deixa-me felicíssima.
Que ensinamento tiraste do teu trabalho em publicidade para a vida toda, digamos,para o que fazes agora?
Acho que o maior ensinamento é viver com essa frustração constante em termos de, epá, nada vai sair como esperas, nunca vai ser nada tão perfeito, mas pelo menos está feito.
Há uma frase, não me lembro de quem, que dizia algo como:"Done is better than perfect".
E é verdade, no fim, quando às vezes nos frustramos imenso em Código Nuevo, tipo, epá, não conseguimos chegar a tudo,esta peça não ficou bonita e tal, é tipo, miúdas, mas mesmo assim conseguimos lançar 10 peças esta semana.
Perfeito, nem todas estarão excelentes, mas a capacidade de trabalho com que se conseguiu também é ótima.
Então é como, bem, vamos aprendendo no fim a lidar com essa pequena frustração, mas não deixamos que a roda pare no fim.
