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Transcrição

00:09

- Então?

00:14

Ah, sim? Porquê?Bem, falar em público... Não é algo que adore fazer.

00:19

Mas preocupa-te mais veres-te depois para...Sim, preocupa-me muitíssimo mais ver-me depois do que vou dizer.

00:24

Então, o que vou dizer é...Não digas.Isto não é considerado propriamente falar em público. Há pouco público.

00:30

Pois. Bem, se não me engano, há dois anos...- Dois anos?

00:37

Saiu um "outdoor" dos Putos Modernos da Factorial.

00:41

Assim que entro, não vê outra coisa a não ser publicidade paga, um banner num blog,um post em "paid" e outras bastante segmentadas sem nenhuma estratégia criativa por trás.

00:58

É então que digo: "Fonix! Então temos de fazer o que sabemos melhor e vamos criar algo que dê realmente do que falar,que tenha uma estratégia e um storytelling por detrás.

01:12

E eu ia com a ideia de "Caraças, Recursos Humanos?".

01:16

Quando nos contaram que era para Recursos Humanos,porque era o que acontecia a toda a gente, perguntei:"Que raio é Recursos Humanos?" Sempre pensei que eram quem despediam. Sei lá, quem te manda um email com o recibo de vencimento ou o contrato...

01:37

Mas nunca os tinha visto como humanos. Não sei se me faço explicar.

01:39

Sempre achei que...Sim, há um problema. Acho também que vem da expressão em si...

01:44

O conceito "Recursos Humanos" gera um pouco de controvérsia,dá a sensação de que os humanos são recursos.

01:53

Mas também não existe alternativa que pareça...

01:55

Talento?Departamento de talento?Bem, chamam-me People.

02:00

People é um pouco genérico, não é?Sim, bastante.

02:04

E, quando penso precisamente nisso, digo que os Recursos Humanos são o departamento com menos recursos. Que irónico!

02:12

E, ao investigar um pouco mais, vemos como 80% do pessoal dos Recursos Humanos se sentem presas ao Excel, ao papel e pouco ou nada ligadas às pessoas que, ironicamente, se sentem com muito poucos recursos.

02:27

E é aí que dizemos "Fogo! Porque é que não podemos contá-lo com uma ação e com pessoas como os Putos Modernos, que já têm o seu próprio público-alvo.

02:37

E precisamente aí entra a dictomia:estamos a chegar ao nosso público-alvo.

02:43

Porquê uma lona?Assim que percebemos que nos apresentaram essa lona com o tal storytelling,reparei numa coisa que gostei bastante:um problema dos Recursos Humanos afeta toda a gente numa empresa.

03:00

Quando os Recursos Humanos estão a passar mal ou quando os processos são uma merda,não só repara o estagiário como todas as pessoas que tomam notas.

03:08

E foi isso que achei bastante poderoso para lançar e dizer "Vamos por aqui".

03:16

Não sei como é que vocês viveram a partir do vosso...

03:20

Do vosso primeiro briefing...Não sei... Aceitamos, mas não sei se este é mesmo o apoio que escolheria eu.

03:30

Sim, aconteceu-nos isso que estavas a dizer...Esse desconhecimento do que é um departamento de Recursos Humanos...

03:38

Acho que é um problema a dobrar.Em primeiro lugar, o cidadão comum, não sabe mesmo onde começam e acabam as funções do departamento.

03:46

É como um Excel em grande, com muitas folhas.Em segundo lugar, apesar de conhecer, obviamente,não parece ser o departamento mais atrativo para trabalhar o para promover.

03:58

A partir daí, entramos na questão "Opá, nós também não conhecíamos assim tanto a Factorial" ou soava-nos mais pelo meio empresarial, através de uns empreendedores catalães que angariaram tanto dinheiro, mas também não tínhamos as coisas muito claras.

04:13

E a questão foi um pouco esta: eles não são B2B?

04:19

E a dúvida de que um cartaz publicitário, por definição, é um meio massivo.

04:24

Portanto, trata-se mais de B2C.Também vimos que uma marca não tem um só,mas vários públicos.

04:29

Por exemplo, o investidor também é público -o futuro investidor, o trabalhador- que, apesar de não ser o diretor dos Recursos Humanos também pode exigir.

04:40

Existem também muitos exemplos de empresas B2B que fazem publicidade B2C.

04:46

Intel é um desses exemplos.Não se pode comprar um microprocesador Intel assim "a seco".

04:52

Tem de se comprar um computador e eles sempre se preocuparam muito com o Intel Insight.

04:57

Acho que são eles que patrocinam a Champions League.

04:59

Portanto, não julgámos. Aquilo que dissemos foi:"Pode não ser o mais habitual, mas é possível".

05:04

Percebemos que estava a decorrer ali um possível jogo num canal interessante e decidimos arriscar. A partir daí, começamos a conversar.

05:13

Tenho uma história bastante...Como curiosa que sou, vou dizer...

05:19

Que foi quando nos mostraram o cartaz... A primeira coisa que nos disseram a nível interno "Isto é texto a mais" E ficámos tipo: "Caraças!"

05:31

Isto é texto a mais.Estou bastante convencido de que não se deve fazer o logótipo muito maior,mas sim a mensagem mais memorável.

05:38

Estavam sempre a dizer: "Onde está a Factorial?E foi a primeira vez que lutei contra essa convicção de "Tem de se ver a Factorial" Era tipo "Não, tem de se ver é a história".

05:50

E depois as pessoas mostrarão interesse por quem a está a contar.

05:53

Mas o foco inicial era "Preciso que as pessoas vejam primeiro uma história e um problema.À partida, o facto de existir tanto texto num meio de comunicação que, embora grande, está pensado para ser visto de passagem.

06:07

Aliás, é surpreendente por ser tão contraintuitivo e não ser o que se esperaria.

06:10

É um pouco soberbio pedir às pessoas que leiam,mas é precisamente pelo texto a mais que surge o "Que raio é isto?

06:20

Que porcaria me estão a obrigar a ler?" Desta forma, obviamente, para além de colocar demasiado texto,esse texto tinha de cativar ou contar algo.

06:30

E foi aqui que tentámos converter o "brief" numa história, digamos, meio fictícia, que também pode ser um pouco verdade,que devido ao pouco tempo para completar aquele cartaz, tínhamos passado a "batata quente" ao estagiário e este teria feito o cartaz sem consultar ou validar nada, entre tantas outras coisas.

06:52

Porque não se teria conseguido organizar bem devido à ausência de uma gestão....

06:57

De Recursos Humanos.Exacto. E é aí onde entra o problema e, portanto, a Factorial.

07:00

Mas, obviamente, essa história é totalmente fictícia.

07:03

Não é isso que acontece.Nunca nos acontece deixarmos o trabalho para o fim e delegá-lo a estagiários...

07:08

Funcionou e, de facto, foi a primeira vez que dissemos...

07:12

Bem, porque eu já...Bem, porque eu já...Confio bastante nisso, mas disse-se: "Temos de investir na marca,Confio bastante nisso, mas disse-se: "Temos de investir na marca,Confio bastante nisso, mas disse-se: "Temos de investir na marca,isto é, temos de investir neste tipo de ações.

07:20

A prova disso foi que, após o cartaz em Espanha,seguiu-se uma campanha mundial que se realizou simultaneamente em cinco países.

07:29

Contratámos agências em cada país e em cada uma tentámos fazer barulho de uma forma parecida, com base numa insight que acredito que nunca -ou que ainda não se tinha chegado à conclusão- é preciso contar um problema para que alguém queira saber onde está a solução.

07:48

E essa foi a primeira vez que dissemos: "Opá, vamos focar-no problema e não no produto".

07:54

Acredito que foi um antes e um depois. Quer dizer...

07:58

Parabéns.Afinal, as pessoas não podem comprar o que não sabem que existe.

08:04

Exatamente.Para existirem na mente das pessoas, tem de se criar a marca.

08:08

Porque, ao fim e ao cabo, se se vai vender algo e as pessoas pensem...

08:11

"Quem é o senhor?" Antes de me vender alguma coisa é como pedir alguém em casamento."Mas onde de onde é que nos conhecemos?" Mas, à medida que se for da consideração à conversão, é necessário menos poesía e mais prosa.

08:28

Aí funciona melhor um "pague dois por um" ou um desconto.

08:32

Nas camadas altas, tal como estávamos a falar da consideração do branding, criar uma marca, para mim, não é colocar o logótipo muito grande.

08:44

É expressar a marca, o tom e a visão.E, na solução e na forma como o problema era mostrado,havia muita marca. Existia, obviamente, a solução da marca e uma forma particular de resolver o problema com humor,autocrítica ou audácia.

08:59

É igualmente audaz utilizar um meio demasiado caro para fazer algo aparentementedisparatado.

09:07

Exato.Aliás, suponho que a primeira reação do Bernat -aliás, consta-me porque ele disse numa entrevista em Itnig- foi "O que é isto?

09:14

Como é que vamos utilizar?" As pessoas que nos estão a ouvir têm de saber que um cartaz num sítio caro custa muito dinheiro. Custa dinheiro.

09:20

Depende, mas normalmente mais de seis dígitos.Então, como é que se gasta?

09:23

Vai sair daqui um tweet muito caro, não vai?O que é que vamos fazer?

09:27

Bem, parte da provocação e da disrupção está aí.

09:30

E isso também é marca.Por exemplo, dizer às pessoas "eu utilizo um cartaz diferente de qualquer outra marca" também é marca.

09:37

Mas uma das coisas que me ocorre agora é que também existe o risco de isto se virar contra nós.

09:44

Ao demonstrar-se que a marca é importante e que também se pode medir porque, claro, existem alguma coisas que sim se podem medir:crescimento orgânico, pesquisas orgânicas, temas, algoritmo nas redes sociais...

10:00

Mas também é inegável que não se pode ter algo tão medível e rastreável como colocar um anúncio no Paid Media.

10:07

Diz-se que uma marca não traz negócio imediato.Mas eu não concordo nada com esta teoria. Se há algo que a Vicio está a vender,é um pedaço da sua marca em cada hambúrguer.

10:18

E depois é a marca Vicio a que atrai diferentes públicos.

10:21

Um deles é quem investe: o facto de que, de repente, um fundo de capital numa hamburgueria que praticamente acaba de abrir;ou o Messi investir 15 milhões às cegas quase às cegas...

10:33

É porque gostou da marca não por serem os pioneiros em fazerem Smash burgers, já havia aos pontapés.

10:39

Portanto, o dinheiro do investidor é negócio imediato e eles estão a investir numa boa marca,porque as promesas de venda, naquele momento, eram apenas promessas e improváveis.

10:50

Por isso, acho que essa coisa de separar "negócio" de "marca" é muito perigoso.

10:54

Para mim, marca significa negócio contínuo a longo prazo, como estávamos a dizer.

10:59

Pero não existe mais negócio do que criar uma boa marca.

11:03

Exatamente.Pensemos nas maiores marcas do mundo... São grandes negócios.

11:08

Disney, Nike, Apple.Penso que o desafio que temos agora é não morrer pelo caminho.

11:14

Ao demonstrarmos que a marca tem futuro,temos tendência para fazer muita campanha.

11:19

E é aquilo que estavas a dizer há bocado que me parece muito visto...

11:24

Não fazer muito, mas sim mais e melhor.Especialmente numa startup em rápida expansão,tem-se a tendência para "fazer, fazer, fazer", testar e A/B tests.

11:35

Por isso, é que muitas vezes surge a questão de "Como é que se faz isto?" Manter a consistência.

11:41

Como é que não se obtém cinco mensagens diferentes?

11:45

Contamos com cinco mercados poderosos, onde estamos a lançar marcas,Por exemplo, agora... Quer dizer, peço desculpa, campanhas.

11:52

Por exemplo, agora estamos com um conceito global e, posteriormente, realizar ativações em cada mercado,dependendo do que for preciso reforçar,mas existe sempre aquele impulso de dizer:- "Ah, funciona! Mete mais!"

12:06

Normalmente la inércia de um negócio contagia.Por exemplo, porque é que a indústria da moda ou a indústria do luxo sempre cuidaram melhor da marca?

12:13

Porque sempre se soube que vendem mais perceções do que um creme 500 € da Dior. No entanto, a nível funcional,não é assim tão diferente ou melhor do que um creme de 3 € do Mercadona.

12:25

Em contrapartida, no mundo da tecnologia e da engenharia, as fases beta, o "done is better than perfect", o fazer, o modo "maker" absoluto,são quase como uma tirania do fazer. Compreende-se,mas é uma lógica um bocado perversa. Porque, apesar de no produto,se poder sabe-se lá quantas vezes, não costuma existir segunda oportunidade de dar uma primeira impressão na comunicação.

12:50

Normalmente, os ensaios de comunicação....Atenção, ensaios na comunicação não significam erros.

12:59

Aliás, existem marcas que fazem do erro não para retificar,mas sim para gozar dos próprios error e fazer uma segunda campanha.

13:06

No meu caso, gosto muito do exemplo da Ryanair.A Ryanair odeia os seus haters.

13:11

Por tratar-se de uma marca que recebe muito "hate",eles utilizam isso como matéria-prima para dar a volta por cima.

13:19

Na comunicação está autorizado praticamente tudo, até os erros.

13:22

Como estávamos a dizer há pouco, um dos valores da comunicação não só é o fator "longo prazo", mas também a consistência. Claro E, se se muda todos os dias, a marca esfuma-se de tal forma que uma marca perdida na névoa já não é uma marca.

13:36

Uma das coisas com que nos deparamos diariamente é "O que é que vamos fazer que ainda não tenha sido feito?" Honestamente, quando partimos para coisas mais loucas ou disruptivas,também odeio esta palavra, não nos custa tanto.

13:55

Mas, quando vamos para publicidade mais tradicional,ficamos tipo "Bolas, isto se calhar já foi feito!".

14:03

E há uma parte de mim que sente que não seja má ideia ter a mesma ideia do que outra pessoa, desde que se faça melhor.

14:11

Pessoalmente, penso que não se deve fazer algo só porque já foi feito antes.

14:15

Não sou desse mundo.Não sou assim.Claro que aqui entraríamos praticamente na metafísica, mas é parecido a definirmos "ideia".

14:23

Na minha opinião, a ideia que tenho tem uma grande parte de execução.

14:26

Um ponto de partida até pode coincidir, mas é muito raro que tanto o ponto de partida como o seu desempenho coincidam.

14:32

Mas já não só em publicidade.Antes do Facebook, já existia Hi5, Friendster, etc.

14:37

O Facebook inventou alguma coisa diferente? Um algoritmo melhor? Uma interfaz melhor?

14:41

Existe a questão de como executar, como vender,que marca construir, bla bla bla.

14:46

Depois haveria um outro debate, mais filosófico,que nos daria pano para mangas...

14:51

Que é o debate da originalidade contra criatividade.

14:54

Não acredito muito na criatividade.... Acho que é algo bastante insolente.

14:57

Se se pensar na palavra "originalidade", é como se eu e o meu génio interior fôssemos a origem das coisas.

15:04

Quando, na verdade, criatividade é misturar coisas nunca antes vistas,consciente ou inconscientemente. Portanto, isso que chamamos de inspiração não é mais do que o cúmulo das coisas que, consciente ou inconscientemente,se mistura e poderão surgir do cinema, de algo visto na rua,de ter visto nos prémios de Cannes... Sei lá.

15:22

E depois existem coisas que são como territórios comuns. Não digo óbvios,mas sim evidentes.

15:26

Por exemplo, no caso de um detergente, é fácil dizer, nalgum momento,que lava branco ou mais branco ainda.

15:34

A partir daí, enquanto algumas pessoas vão dizer de uma forma através de bonecos de ficção a entrarem na tecnologia, outras tantas dirão com um falso jornalista a tocar à campainha e a aparecer uma dona de casa com o seu cesto todo bonitinho.

15:54

Mas o branco não é património de um único detergente, porque basicamente trata-se do insight dos consumidores que querem ter a sua camisa branca e intacta como quando a compraram.

16:05

E, por falar em copiar, como é que vocês lidam com o facto de se copiar muito o vosso formato?

16:12

Há uma parte positiva que é quando alguém atribui mais campanhas do que as que se costuma fazer. Todas as semanas são-nos atribuídas campanhas que não são nossas.

16:20

Isso é fixe, mas não deixa de ser engraçado.Quando a campanha é muito má, dizemos que não é nossa;e, quando é uma boa campanha, simplesmente não dizemos nada.

16:29

Mas a questão está em "O que é que acontece? O que há de bom nisso?" Sem acreditar que inventámos o humor publicitário ou a publicidade baseada em "copy", que seria um pouco convencido, acreditamos sim que o facto de isso acontecer e que as pessoas nos atribuam campanhas que não são nossas demonstra que temos um selo ou um estilo reconhecível. Significa que somos uma marca.

16:50

A prova de que somos una marca é as pessoas perceberem que há coisas que fomos nós que metemos o capital ou que se reconhecem em nós.

16:59

A partir daí, está o facto de se sentirem mais ou menos inspiradas por nós...

17:03

Gosto muito dessa idea de desdramatizar:não te preocupes por te copiarem; preocupa-te sim com o dia em que te deixam de copiar.

17:12

Ninguém copia aquilo que não acredita ser digno de ser copiado.

17:15

Aliás, sendo nós os Putos Modernos que roubamos o nome a um graffitti,seria bastante ousado andar a enviar notificações judiciais por direitos de autor.

17:25

Mas, se virmos algo muito literal,acho que é mais arriscado para quem faz do que para quem recebe.

17:32

Se o público percebe...Já aconteceu termos fãs -que costumamos chamar de militantes- que, sem precisarem de lhes enviarmos notificações judiciais,começam logo "à porrada" nos comentários sem termos de intervir:"Vocês copiaram?" Se era injusto por não ser assim, ainda mediámos.

17:50

Mas, se era evidente, quem se mete em problemas é quem copia e não quem foi copiado. Certo?

17:55

Então, vamos beber uma cerveja?Bora, vamos a duas.

17:59

Três, se forem pequenas.