Transcrição
Pergunta três.Em ambientes de alta responsabilidade como a aviação ou a gestão de equipas, que fator de desempenho é ainda demasiado subestimado hoje?
A: o bem-estar, B: a força do coletivo no desempenho, C: a preparação mental diária, D: o curinga.
Vou ficar com a A: o bem-estar, porque acho que é o mais importante.
Adoro o coletivo, mas vou escolher a resposta A:o bem-estar, com duas noções particulares:o autoconhecimento e a vulnerabilidade.
O bem-estar — Patrick, formaste-me numa formação de dois dias sobre gestão e gestão da pressão.
Acho que no centro da tua formação está o tema do bem-estar.
Sei que adoras acrónimos e lembro-me de um acrónimo que me explicaste na altura, que ficou comigo e que aplico.
Tento aplicá-lo.É o método DESK para a gestão de conflitos e feedback.
Tive uma experiência numa das minhas primeiras empresas onde recebi um feedback que foi muito difícil de aceitar para mim.
Disseram-me: és hipersensível.E foi difícil recuperar de um julgamento bastante duro porque é um julgamento negativo.
E com o aprendizado de mim própria, tento tornar o humano a minha força.
E a minha hipersensibilidade, para mim, é uma das ferramentas mais importantes que tenho para ser uma boa gestora e uma boa profissional.
Porque é a minha qualidade como ser humano.E como pessoa hipersensível, vou também ser empática, e vou ler os sentimentos dos outros.
E simplesmente tu, como pessoa, dizeres-me: és um ser humano.
Porque o ser humano não se deixa em casa.O ser humano vem todos os dias para o trabalho.
Quando tens um problema, vai aparecer: há dias em que o teu cão morreu, e estás no trabalho na mesma.
E esse lado humano vai estar lá.E evidentemente, essa é a minha carta — o bem-estar — porque acho que todos devíamos ser mais humanos nas organizações.
Estamos completamente em sintonia nesse assunto.O que posso acrescentar é que a grande evolução que tivemos no modelo de competências dos pilotos foi na sequência de um trauma:o acidente Rio-Paris.
Aí foi feito um trabalho sério.Eu fazia parte dos chefes de projeto que trabalharam na componente de formação de pilotos.
E de facto, passámos de um modelo de avaliação de competências de 110 critérios — muito técnico — para um modelo de competências que poderíamos talvez rever — fácil de memorizar — com um número de competências que são nove competências raiz.
Ou seja, cinco soft skills para quatro competências mais técnicas,quando consideramos que pilotagem é uma profissão muito técnica.
Falamos na verdade de uma maioria de soft skills.Mas a grande inovação nesse trabalho é que o núcleo do modelo de competências é o autoconhecimento.
Eu prefiro pessoalmente falar de gestão de si mesmo.
É verdadeiramente esta dimensão humana — se quero ter energia para produzir as competências necessárias para uma atividade,ao serviço dessa atividade — eu própria preciso de estar bem.
Sim, preciso de estar bem eu própria.Esta dimensão de autoconhecimento, de gestão de si mesmo,é central na dimensão das competências que me vão colocar em relação com os outros — ou seja, a comunicação, a relação, etc. — com a minha atividade,com a minha organização.
Tudo isso exige depois um trabalho inteiro sobre o que é uma relação de qualidade.
Sabendo que existe um estudo que começou há 85 anos em Harvard.
Há um livro que sintetiza esse estudo que se chama The Good Life,que é muito interessante.
Esse estudo mostra que a saúde — mental em particular — e a saúde em geral:a primeira alavanca da saúde — antes do dinheiro, antes de tudo o que é médico, digamos — é a qualidade das relações,a qualidade do vínculo.
O debate terminou.Muito obrigado por todas as vossas respostas.
Foi mesmo muito bom. Obrigado a vocês.Obrigado a ti — foi mesmo ótimo. Até breve.
Então — disse bem o método DESK?Foi perfeito. Ainda o fizeste teu.
Não abandonei o método em sete anos.
